Livro: Comunicação e estudo e práticas de compreensão

Dimas A. Künsch, Mateus Yuri Passos, Pedro Debs Brito, Viviane Regina Mansi (Orgs.).

São Paulo: Editora Uni, 2016, 262 p.

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Este livro é parte dos trabalhos do projeto “A compreensão como método”, que reúne pesquisadores brasileiros, da Faculdade Cásper Líbero, e colombianos, da Facultad de Comunicaciones da Universidad de Antioquia, Medellín. Ele se junta a outros trabalhos, publicados num primeiro livro, em 2014 – Comunicação, diálogo e compreensão –, em capítulos de outros livros e em artigos de revistas. Aparece, ainda, como um filho dileto de dois seminários, o I e o II Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas da Compreensão, o primeiro de 2015 e o segundo, de 2016.

Bem de acordo com as ideias mais caras à compreensão como método, Comunicação e estudo e práticas de compreensão não trabalha com pontos finais, mas, antes, com vírgulas, exclamações, interrogações e reticências. O livro mostra, com a diversidade de temas, metodologias e referenciais teóricos, um pequeno exemplo do “abraço” que a ideia de compreensão sugere e evoca. Mostra, e não demonstra. Apresenta, mais do que representa. Sugere e chama para uma conversa, mais do que cultiva a falsa alegria de ter respostas prontas para tanta coisa que às vezes nem resposta admite. “La réponse est la mort de la question”, diz Maurice Blanchot. Ele pode ter razão.

No fundo, a compreensão como método chama a atenção para uma coisa bem simples, embora pouco fácil de se realizar no corre-corre cotidiano, sem rumo nem direção: mais vale às vezes o prazer da viagem que a sensação de se encontrar no lugar para onde se viajou. A sexta-feira e o sábado, não é que nos encantam mais que o nada desprezível domingo? E o que dizer das horas e dos minutos que antecedem uma festa, um encontro amoroso, uma coisa qualquer agradável de se fazer?

Sem menosprezar a explicação, o conceito e o argumento, essa coletânea diverte-se, fugindo ao Signo da Explicação absoluta e universalizante, em apontar caminhos possíveis, chamar para o diálogo, indicar. Diversidade lembra divertido e diversão. Impressionante como a mirada compreensiva sobre o mundo, que nos convoca a abraçá-lo em seus significados infinitos, não combina nem um pouco com a sisudez de certa atitude intelectual que mais parece preparada para a guerra que para a alegria de descobertas e também de não-descobertas a serem partilhadas com os amigos.

O campo da Comunicação, no Brasil, passa por um momento que poderíamos chamar de autoenclausuramento: a busca por uma delimitação o mais das vezes fechada de seu objeto, de seus métodos e referenciais teóricos, além de se tentar construir uma autoidentidade científica digna de um Augusto Comte, pai do Positivismo – daí decorrem tentativas de mimetizar as ciências naturais, duras, com certa sobrevalorização de estudos quantitativos e a rejeição de formas como o ensaio, a condenação da autonomia autoral, a ojeriza por linguagens simbólicas e outros vícios.

No projeto “A compreensão como método”, desenvolvido desde 2015 na Faculdade Cásper Líbero pelo grupo de pesquisa Comunicação, Diálogo e Compreensão e na Colômbia pelo Grupo de Estudos Literários, fazemos um movimento numa direção não exatamente oposta, mas divergente: buscamos abarcar em nossos estudos não apenas outras disciplinas acadêmicas, mas toda maneira que o ser humano desde sempre desenvolveu para tentar dar significado ao mundo – os mitos, as religiões, a arte, os saberes cotidianos, o entretenimento. Nessa onda, o disciplinado, o não-disciplinado e até o indisciplinado convivem. A complementaridade dos opostos e a incerteza deixam de ser meros princípios proclamados pela Física há cerca de cem anos, para se revelar em sua fertilidade desde os tempos mais antigos, no mito como na Filosofia, nas artes como nas culturas de uma miríade de povos. Na vida.

Essas opções, ou apostas, não implicam a perda de rigor e de critérios nos trabalhos que desenvolvemos. Os textos que compõem este livro, assim como o belo prefácio de Cremilda Medina, procuram tornar evidente que o que produzimos segue sendo, antes de tudo, pesquisa – e o que buscamos, acima de tudo, são instrumentos robustos para dar conta de uma realidade que a cada dia desafia e faz rever aquilo a que denominamosentendimento.

Compreender, na acepção que valorizamos, significa acima de tudo abraçar – dialogar com formas de saber externas e alheias à ciência positiva, para reconhecer tanto sua validade para a construção de conhecimento quanto a necessidade de se ouvir o que essas formas têm a dizer, dada a – irônica? – insuficiência do empirismo para lidar com os fenômenos naturais e sociais.

Compreender – para além da antiga e pouco compreensiva discussão levada à frente por autores como Dilthey, Max Weber e outros, sobre as diferenças entre verstehen (compreender) e erklären (explicar) no interior das distintas ciências – significa lidar com esses saberes, sem hierarquizá-los. Sem confundir ciência organizada com conhecimento, significa reconhecer a importância de seus papéis e as limitações de seus campos de ação. Ao aliá-los, mais com o intuito de descobrir novos caminhos de entendimento do que respostas e pretensas verdades finais que acabam desvelando o velho ranço do reducionismo, a compreensão como método pretende torná-los mais fortes, mais significativos, mais humanos.

Nas leituras e discussões, nas análises, nos experimentos efetivos com os pressupostos delineados em diálogos inter e transdisciplinares, estão aqui cartografadas distintas dimensões de um empenho concreto em construir conhecimento, em responder a um mundo que grita – mais do que para ser fatiado e entendido, para ser compreendido em sua complexidade.

Comunicação e estudo e práticas de compreensão, como os demais livros do projeto “A compreensão como método”, é produzido com licença Creative Commons e encontra-se disponível gratuitamente abaixo.

 

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