JORNALISMO LITERÁRIO CONTRA-HEGEMÔNICO: NARRATIVA E FONTES DE INFORMAÇÃO EM PRODUTOS INDEPENDENTES

Docente responsável

Prof. Dr. Mateus Yuri Ribeiro da Silva Passos

Instituição

Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

Escola de Comunicação, Educação e Humanidades

Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social

Resumo

Este projeto se centra sobre as estratégias discursivas – em especial o papel das fontes de informação –, a construção da narrativa, os critérios de noticiabilidade e as estratégias de sustentabilidade de reportagens de jornalismo literário produzidas por websites independentes. O ponto de partida é a indagação sobre quais particularidades permitem distinguir as construções discursivas no jornalismo literário independente em relação ao jornalismo literário produzido pelas mídias hegemônicas – em especial, saber se há maior ou menor potencial para um tratamento mais efetivamente plural das fontes. A pesquisa contemplará a análise de seis websites independentes que veiculam total ou parcialmente material que se configura como jornalismo literário: os brasileiros Agência Pública, Calle2 e História do Dia e os estrangeiros Pie de Página, El Estornudo e La Silla Vacía.

Abstract

This research project aims to analyze the discourse strategies – in particular the role of information sources –, narrative structure, news values and strategies for susteinability in independent website that publish literary journalism stories. Our main concern is which aspects allows for identifying distinctions between discourses in independent literary journalism and literary journalism published and nurtured by hegemonic media – in special, it compels us to discover if there is a higher or lesser potential for a more diverse a plural treatment of information sources/characters. The research comprehends the analysis of material published by six independent websites that publish literary journalism pieces – even if it is not their main product: Brazilian websites Agência Pública, Calle2 and História do Dia and foreign Latin American websites Pie de Página, El Estornudo and La Silla Vacía.

1.Enunciado do problema

Esta pesquisa se centrará sobre as estratégias discursivas – em especial o papel das fontes de informação –, a construção da narrativa, os critérios de noticiabilidade e as estratégias de sustentabilidade de reportagens de jornalismo literário produzidas por websites independentes. Optamos por trabalhar com o setor independente de produção jornalística porque, conforme aponta Cláudia Nonato (2018), ele tem se configurado como alternativa viável de trabalho para profissionais do ramo, uma nova forma de arranjo produtivo que pode proporcionar maior liberdade de ação e experimentação – trabalha-se ainda com publicações em ambiente digital porque ali se tem observado não apenas um potencial, mas uma efetiva circulação de vozes contra-hegemônicas (COUTINHO e MARINO, 2017).

O ponto de partida é a indagação sobre quais particularidades permitem distinguir as construções discursivas no jornalismo literário independente em relação ao jornalismo literário produzido pelas mídias hegemônicas, assim como em relação a outros modelos jornalísticos – em especial, tendo em vista os diferentes pressupostos que embasam a episteme de cada modelo, interessa-me saber se há maior ou menor potencial para um tratamento mais efetivamente plural das fontes, expresso naquilo a que Mikhail Bakhtin (2010) denomina polifonia – a presença de uma miríade de vozes discursivas distintas que permita reconstituir um acontecimento ou discutir um tópico de forma complexa, sem direcionar o leitor a um fechamento conclusivo, fornecendo mais instrumentos para uma abertura interpretativa.

São objetivos específicos desta pesquisa:

  • Mapear, de forma abrangente, os setores sociais ouvidos pelas reportagens e sua forma de caracterização;
  • Identificar as distinções e semelhanças na construção estética das reportagens dos diferentes veículos analisados;
  • Identificar as distinções e semelhanças nos critérios de noticiabilidade dos diferentes veículos, bem como suas distinções e semelhanças em relação ao jornalismo literário que circula na mídia hegemônica;
  • Identificar as distinções e semelhanças na incorporação de recursos tecnológicos contemporâneos pelos diferentes veículos analisados;
  • Identificar os diferentes modelos de produção e de sustentabilidade adotados pelos veículos;
  • Avaliar o potencial e o efetivo uso do jornalismo literário como modelo informacional contra-hegemônico.

A pesquisa contemplará 6 websites independentes que veiculam total ou parcialmente material que se configura como jornalismo literário: os brasileiros Agência Pública (http://apublica.org), Calle2 (https://calle2.com), História do Dia (http://historiadodia.com.br) e os estrangeiros Pie de Página (México, http://piedepagina.mx/index.php), El Estornudo (Cuba, https://www.revistaelestornudo.com) e La Silla Vacía (Colômbia, http://lasillavacia.com). A seleção dos websites contemplou veículos de relevância junto a seus países e comunidades, assim como a indicação ou efetiva premiação de suas reportagens pelo Premio Gabriel García Márquez de Periodismo, conferido pela Fundación para un Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), importante órgão internacional de formação e pesquisa sobre jornalismo literário. Apesar de o número de veículos parecer excessivo, de um modo geral o volume de material de jornalismo literário que circula neles não é grande o suficiente para inviabilizar a pesquisa. Do mesmo modo, a análise qualitativa será feita a partir de uma pequena amostra dos trabalhos.

Estando claras as linhas gerais do trabalho, é preciso apresentar duas premissas gerais que tomo como ponto de partida, desenvolvidas em pesquisas anteriores. A primeira delas define jornalismo literário como um termo bastante amplo que abarca um conjunto diverso de gêneros enunciativos situados na fronteira entre jornalismo e literatura (PASSOS, 2014). O jornalismo literário surgiu e se desenvolveu de forma independente em diversos lugares do mundo entre os séculos XVIII e XX – no mundo anglófono, por exemplo, teve como ponto de partido as sketches que se popularizaram a partir dos anos 1820, um gênero análogo à crônica brasileira (SIMS, 2007) –, com alguns momentos de influência mútua – o Novo Jornalismo norte-americano da década de 1960, por exemplo, foi decisivo para o investimento em jornalismo literário por veículos brasileiros como a revista Realidade e o Jornal da Tarde (LIMA, 2008).

Derivando dessas considerações, a segunda premissa defende que, enquanto representação do real, o jornalismo literário pode ser melhor compreendido como um modelo jornalístico distinto, ao invés de um gênero ou modalidade agrupada junto às categorias de jornalismo informativo, opinativo, interpretativo etc. (PASSOS e ORLANDINI, 2008). Desse modo, o jornalismo literário se contrapõe, como modelo sistêmico, ao jornalismo de pirâmide (PASSOS, 2010), assim denominado por ter como seu produto principal e mais nobre as notícias e reportagens estruturadas na forma da pirâmide invertida encabeçada pelo lead, o qual concentraria em si a unidade informativa essencial de um acontecimento (GENRO FILHO, 2012) – porém, o jornalismo de pirâmide, num escopo mais amplo, marcado pela separação histórica entre notícia e opinião, abarca também os diversos gêneros opinativos e interpretativos associados a essa dicotomia.

Tendo isso em vista, uma primeira possibilidade a se levantar seria a de que nos gêneros de jornalismo literário essa separação inexiste; porém, como apontado por David Eason ao tratar de vozes enunciativas no Novo Jornalismo (1990), há uma parcela considerável de repórteres que evita incluir conteúdo opinativo, ou prefere fazê-lo por meio de descrições metafóricas ou comparações (MARTINEZ, 2016), sem emitir diretamente juízo a respeito de pessoas e ações – para Eason, esses são jornalistas literários “realistas”, a quem poderíamos chamar também de empiricistas, que tomam como pressuposto a viabilidade de se apreender e reconstruir em texto uma realidade externa existente a priori; em oposição a esse conjunto Eason apresenta repórteres “modernistas”, a quem poderíamos considerar fenomenólogos, que se propõem a apresentar uma apreciação e narração de acontecimentos e pessoas a partir de suas próprias lentes, de seus filtros culturais e ideológicos, e não se contêm no que toca ao oferecimento de opiniões, pois compreendem seu papel não como o da mediação isenta, mas como o da interpretação da realidade – embora ainda baseada na apuração de fatos e na realização de entrevistas. Assim, o grau de separação entre fatos e opiniões, o nível de interpretação autoral embutido nos textos varia fortemente entre autores e gêneros de jornalismo literário. Conforme apontado por Eduardo Ritter em sua tese de doutoramento (2015), o jornalismo gonzo de Hunter S. Thompson tem como traço distintivo a parresía – uma enunciação franca, sem freios –, a qual não se encontra de forma alguma, por exemplo, nas reportagens de Lillian Ross, a qual entendia que as próprias ações e as falas de seus entrevistados seriam suficientes para que os leitores tirassem conclusões a respeito deles.

Um elemento que permite distinguir de forma mais demarcada como cada um dos modelos concebe a episteme do jornalismo, porém, está no peculiar uso de personagens como definidores do real em obras de jornalismo literário – o qual parece ser comum aos diversos gêneros enunciativos que o termo compreende.

No jornalismo de pirâmide o papel de fontes de informação, de acordo com Aldo Schmitz (2011), se configura tanto no auxílio à apuração das notícias, enquanto entrevistados, como no oferecimento de conteúdo próprio para deliberadamente fornecer informações que possam dar origens a pautas de notícias e reportagens – podendo, nesse caso, ser consideradas como “um poder que mede forças com o ‘poder da imprensa'” (SCHMITZ, 2011, p.10). Schmitz distingue as fontes entre primárias – diretamente envolvidas com fatos – e secundárias – cujo papel é o de analisar e interpretar informações obtidas a partir das fontes primárias, podendo ser ainda classificadas, de acordo com seu status social, como fontes oficiais, empresariais, institucionais, populares, notáveis, testemunhais, especializadas ou referenciais. Stuart Hall et al (2016) defendem ainda que um conjunto específico de indivíduos ocupa um patamar privilegiado enquanto fonte – seja pelo envolvimento direto com eventos em questão ou pelo oferecimento de análises –, a ponto de suas enunciações serem utilizadas para definir o enfoque, o fio condutor da narrativa noticiosa; ou seja, para definir um determinado recorte e uma determinada leitura de realidade que serão seguidos numa determinada peça jornalística. Essas fontes, que compreendem as oficiais, empresariais, institucionais e especializadas, são chamadas por Hall e seus colaboradores como “definidores primários”, justamente por conta desse papel crucial na condução da produção jornalística.

Como apontei em um trabalho anterior (PASSOS, 2010), é justamente em busca de objetividade que o jornalismo de pirâmide confia aos definidores primários o papel de intérpretes da realidade, delegando ao repórter a função de mediador e de “garimpador” de declarações dessas fontes. Desse modo, podemos afirmar que o jornalismo de pirâmide se fia não em indivíduos para a representação e análise de fatos, mas em instituições – governos, órgãos de polícia e defesa, empresas e, principalmente, os diversos ramos da ciência; e seria justamente o poder institucional dessas organizações, seu prestígio e reconhecimento social, o que conferiria credibilidade tanto às fontes que as representam quanto ao material noticioso que faz uso delas para tratar de determinado acontecimento.

Esses procedimentos, porém, têm como consequência a reprodução de um pensamento hegemônico a que Bakhtin/Volóshinov (2012) conceitua como ideologia oficial, desenvolvida e reforçada justamente pelo conjunto de instituições que respaldam os definidores primários, e que o autor contrapõe a uma ideologia do cotidiano que seria formada pela experiência imediata de indivíduos ligados ou não a essas instituições – e nesse caso me parece adequado reforçar a acepção dessa experiência como algo não-mediado, ou seja, anterior à construção da realidade nos meios de comunicação de massa.

A definição da leitura do real por essas fontes, assim como a circulação majoritária de suas declarações, que as hierarquiza num estrato superior de qualidade e credibilidade em relação a outros tipos de fonte, acaba por reforçar o suporte à ideologia oficial e por silenciar e marginalizar outras vozes e possibilidades interpretativas, fenômeno a que Elisabeth Noelle-Neumann (1993) denomina espiral do silêncio.

Por outro lado, enquanto o jornalismo de pirâmide utiliza entrevistados como fontes de informação amparadas e validadas a partir das instituições de poder que representam, no jornalismo literário esses indivíduos se transformam em personagens que, retratados em seu sentir e agir no mundo, têm a validação de sua fala articulada a partir de suas vivências, que lhes conferiria credibilidade de modo independente de um amparo institucional.

Repórteres como Joseph Mitchell (2012) e James Agee (2009) buscavam em suas reportagens mais célebres não apenas ouvir fontes não-oficiais, o chamado everyman [“homem comum”], mas tornar suas experiências e pontos de vista o centro da enunciação, o principal definidor do enfoque e do tom da narrativa. Todo o conjunto da obra de Mitchell pode ser compreendido como análogo aos esforços de Joe Gould, um de seus personagens, que pretendia compor uma história oral da vida norte-americana das primeiras décadas do século XX, a suprema antologia da ideologia do cotidiano dentro dessa delimitação cronotópica (PASSOS, 2014). Já Gay Talese (2005) e Truman Capote (2003) ao reconstruírem em texto, respectivamente, alguns dias na vida do cantor Frank Sinatra e os acontecimentos em torno do assassinato da família Clutter, no Kansas, entrevistaram incansavelmente dezenas de pessoas que tiveram contato direto com seus protagonistas – que, no caso do romance de não-ficção de Capote, eram tanto os membros da família quanto os assassinos Perry e Dick; mesmo quando seus entrevistados eram indivíduos de capital institucional que comumente receberiam o tratamento de definidores primários, como policiais, juízes ou produtores da indústria fonográfica, interessava mais aos repórteres a experiência que essas pessoas carregavam consigo, aquilo de ideologia do cotidiano que tinham a ofertar – e é na forma de experiências, de cenas que essas entrevistas foram transportadas para as narrativas.

Podemos atribuir esse comportamento discursivo à postura contra-hegemônica que pautava o Novo Jornalismo norte-americano (PAULY, 1990), que pode ser estendida à tradição do jornalismo literário anglófono como um todo, estendida mesmo a temas de ciência e tecnologia, com abordagens que não se restringem nem têm seu enquadramento delineado necessariamente por definidores primários – nesse caso compreendido com as expertises científicas de um determinado conjunto de conhecimentos. Como apontei num trabalho anterior (PASSOS, 2010), o jornalismo de pirâmide tem dificuldades em confrontar declarações de expoentes da ciência – ou seja, de confrontar as próprias instituições científicas –, ou mesmo de descolar-se deles para buscar outros caminhos de definição dos fatos, por ter uma base epistemológica positivista erigida sobre a firme convicção de que os métodos científicos geram leituras que, se não inequívocas, seriam as mais confiáveis acerca de fenômenos, fatos e comportamentos.

O arranjo discursivo do jornalismo literário, por outro lado, ao privilegiar a experiência e organizar as fontes/personagens de forma mais horizontalizada, se comporta de forma bastante similar à comunidade estendida de pares proposta por Funtowicz e Ravetz (1993), na qual as expertises de determinada área dialogariam em igualdade com não-especialistas diretamente interessados ou envolvidos em algum tópico para que se pudesse realizar tomadas de decisão baseadas num diálogo mais plural – verdadeiramente polifônico, nos termos de Bakhtin (2010), uma vez que vozes com discursos efetivamente distintos teriam oportunidade de ser ouvidas sem que algum poder mediador conferisse maior ou menor autoridade a uma parte delas.

Um tratamento polifônico inclusive de temas ligados a tecnociências pode ser encontrado em Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévich (2016), formado por depoimentos de pessoas de diversos estratos sociais – dentre eles camponeses e a esposa de um bombeiro – que foram tomados de surpresa pelas consequências da explosão do quarto reator da usina nuclear de Tchérnobil em abril de 1986 – porta-vozes da ideologia do cotidiano que se viu fustigada pela ideologia oficial, passando por deslocamentos forçados, testemunhando mortes apavorantes de entes queridos e recebendo sempre ordens, mas nunca instrumentos para compreender o que se passava. Nesse aspecto, a definição do real é pautada pelos testemunhos, pelo drama humano, em meio aos quais pareceria irônico e de menor importância a busca por explicações científicas sobre a explosão ou as consequências do envenenamento radioativo. Nessa mesma linha estava também centrada a força discursiva de Hiroshima, de John Hersey (2002), no qual ocupam lugar central na narrativa as experiências de seis sobreviventes do bombardeio nuclear a Hiroshima em agosto de 1945.

A relevância do estudo está, especialmente, na busca por um mapeamento crítico-analítico do jornalismo literário produzido originalmente para plataformas digitais, de forma independente e fora do tradicional eixo anglófono a que geralmente nos remetemos como se constituísse a totalidade – ou a produção mais qualificada – no campo. O desafio a que nos lançamos é o de expandir o escopo e o repertório do campo de estudos de jornalismo literário.

Essa preocupação está inserida nos esforços da International Association for Literary Journalism Studies, que desde sua fundação em 2006 se esforça para ampliar os horizontes da área, buscando atrair a participação de pesquisadores do maior número possível de países, e ao mesmo tempo identificar diferentes manifestações e tradições de jornalismo literário nas mais diversas línguas e culturas. De um modo geral, esse programa implícito de mapeamento global do jornalismo literário ainda se concentra em trabalhos de reportagem produzidos para os tradicionais suportes impressos (jornal, revista, livro), e em geral filiados a veículos tradicionais. O foco em conteúdo digital e produzido em caráter independente, acredito, pode contribuir para um novo grau de sofisticação e aprofundamento crítico do pensamento na área – em especial no que toca à vocação do jornalismo literário, como modelo sistêmico, para a circulação de vozes contra-hegemônicas.

2.Resultados esperados

A partir da reflexão teórica desenvolvida e do conjunto de ações metodológicas proposto, esperamos obter como resultados:

  • Aprofundamento da compreensão do jornalismo literário como forma comunicacional que circula discursos contra-hegemônicos;
  • Aprofundamento da compreensão de produções de jornalismo literário como produtos informativos, à luz das teorias do jornalismo;
  • Identificação de estratégias estéticas e discursivas de jornalismo literário independente e suas diferenças com relação ao jornalismo literário que circula na mídia hegemônica;
  • Identificação e proposição de modelos de organização e sustentabilidade de websites independentes de jornalismo literário;
3. Cronograma

Como indicado anteriormente, a pesquisa contemplará três aspectos do jornalismo literário produzido e veiculado pelos websites Agência Pública, Calle2, História do Dia, Pie de Página, El Estornudo e La Silla Vacía.

O trabalho será dividido em seis etapas. Na mais fundamental delas, será realizada uma revisão bibliográfica centrada sobre as diferentes configurações de jornalismo literário e de jornalismo independente ao redor do globo. O trabalho de revisão bibliográfica será contínuo, de modo a se estar sempre atualizado em relação ao estado da arte no campo.

Na segunda, será feito um levantamento quantitativo – registrado em plataforma Excel – das reportagens de jornalismo literário publicadas nos websites indicados entre janeiro de 2016 e dezembro de 2018, observando sua temática, o aspecto singularizador (GENRO FILHO, 2012) dado a(os) acontecimento(s)-chave da narrativa – de modo a identificar os critérios que levaram repórteres e editores a considerá-lo(s) relevante(s) (SILVA, 2014) –, assim como diversidade e tipos de fontes de informação – de forma a realizar um mapeamento dos setores sociais contemplados. Será observado também o uso de recursos oferecidos pelas tecnologias digitais contemporâneas.

A partir do mapeamento, será feita a seleção de três produções de cada website para a realização de análise qualitativa em três aspectos. O primeiro deles buscará delinear a polifonia e a construção discursiva nas reportagens de acordo com a forma de abordagem das diferentes fontes de informação; a segunda identificará de forma mais aprofundada as estratégias narrativas e estéticas articuladas nas reportagens; a terceira buscará identificar, também de modo mais aprofundado, os critérios de noticiabilidade adotados.

A seguir, serão realizadas entrevistas semi-estruturadas com os responsáveis de cada veículo – de preferência por meio de software de conferência a distância em áudio ou vídeo –, de modo a se compreender as escolhas editoriais em termos de construção discursiva e informativa, uso de recursos narrativos e tecnológicos, e finalmente da viabilidade econômica dos websites – com especial interesse para identificar quais deles se constituem como única fonte de renda para seus editores e repórteres e de que modo se sustentam.

A partir da análise qualitativa e das entrevistas, será realizada uma análise comparativa entre os resultados a respeito de cada veículo, de modo a termos uma visão mais ampla e complexa do jornalismo literário independente. Também será realizada uma comparação com uma seleção de resultados de pesquisas anteriores sobre jornalismo literário de produção e circulação em mídia tradicional – jornais, revistas e livros comerciais.

Os resultados das etapas anteriores servirão de base para a elaboração de uma análise interpretativa que permita lançar um olhar abrangente e compreensivo sobre o uso do jornalismo literário em websites independentes e de modo geral compreender de que modo a vocação do modelo sistêmico do jornalismo literário se torna ou não efetiva para a circulação de vozes contra-hegemônicas, e de como o modelo se aproxima ou se diferencia de outras formas jornalísticas, a partir de um tensionamento dos resultados com as teorias do jornalismo. O próprio conceito de critério de noticiabilidade e sua pertinência ao jornalismo literário como modelo sistêmico será tensionado, e se chegarmos à conclusão de que é inadequado para tratar desse modelo procurarermos retrabalhá-lo e identificar a melhor forma de defini-lo em conformidade com o modelo.

Segundo semestre de 2018

Revisão bibliográfica;

Levantamento e análise quantitativa;

Submissão do projeto para Comitê de Ética em Pesquisa da instituição;

Submissão de artigo para o Encontro Nacional da Compós;

Submissão de artigo científico a periódico de estrato B1 ou superior;

Estruturação de grupo de pesquisa.

Primeiro semestre de 2019

Revisão bibliográfica;

Análise quantitativa;

Seleção de corpus para análise qualitativa;

Submissão de artigo para o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação;

Submissão de artigo para o Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo;

Submissão de artigo para a conferência anual da International Association for Literary Journalism Studies;

Publicação de artigo científico em periódico de estrato B1 ou superior na área de Comunicação e Informação e novas submissões.

Segundo semestre de 2019

Revisão bibliográfica;

Análise qualitativa;

Realização de entrevistas;

Análise comparativa;

Submissão de artigo para o Encontro Nacional da Compós;

Publicação de artigo científico em periódico de estrato B1 ou superior na área de Comunicação e Informação e novas submissões.

Primeiro semestre de 2020

Revisão bibliográfica;

Análise comparativa;

Análise interpretativa;

Preparação de livro autoral com os resultados interpretativos da pesquisa (conclusão no segundo semestre e lançamento em 2021);

Seminário sobre Jornalismo Literário em Mídia Independente, de conclusão do projeto de pesquisa;

Submissão de artigo para o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação;

Submissão de artigo para o Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo;

Submissão de artigo para a conferência anual da International Association for Literary Journalism Studies;

Publicação de artigo científico em periódico de estrato B1 ou superior na área de Comunicação e Informação e novas submissões.

4.Disseminação e avaliação

A principal aplicabilidade do projeto, em especial por ser desenvolvido junto a um programa onde circulam profissionais da área em busca de aprimoramento, é a de se incorporar, no ensino formal e no próprio exercício da profissão jornalística, as estratégias narrativas e discursivas identificadas ao longo da pesquisa. Espera-se, principalmente, contribuir para a compreensão do jornalismo literário como forma contra-hegemônica de transmissão e hierarquização da informação, viável para tratar de qualquer tópico de relevância jornalística a partir de sua lógica própria. Por outro lado, espera-se também encorajar a criação e viabilização de outros coletivos e produtos de jornalismo independente, apontando caminhos possíveis para além do trabalho na mídia tradicional.

Os resultados de pesquisa também serão oferecidos como devolutiva aos sujeitos que aceitarem participar das entrevistas. Ao terem acesso aos dados em seu plano mais amplo, espera-se que os resultados favoreçam uma autocrítica e aperfeiçoamento de seus produtos e processos.

Por fim, espera-se também um impacto de natureza acadêmica, com ampliação do escopo dos estudos em jornalismo literário – tanto ao se abarcar produtos que escapam aos suportes que são mais tradicionalmente estudados pelos acadêmicos do campo quanto pelo aprofundamento da reflexão sobre a natureza do campo ao tensionar seu comportamento produtivo e discursivo a partir das teorias do jornalismo.

A avaliação do projeto se dará pela efetiva publicação de material relevante para a comunidade de pares. Propomos a publicação de um artigo em periódico avaliado em Estrato B1 ou superior na área de Comunicação e Informação a cada quadrimestre de vigência do projeto (três por ano). A proposta de consolidação dos dados e das reflexões em livro segue a tendência da área de que as obras mais efetivamente lidas e citadas são, ainda, as publicadas em forma de livro. Conforme possível, pretendemos que o livro (assim como os artigos) seja publicado tanto em língua portuguesa como em inglesa e espanhola.

5. Bibliografia

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