Compreensão

Da compreensão como método¹

Dimas A. Künsch
Mateus Yuri Passos

Líderes do grupo de pesquisa “Da compreensão como método”

Compreender é abraçar.
Este o sentido mais próximo do verbo latino comprehendere.
É algo próximo de agarrar, juntar, incluir, pôr para conversar umas coisas com as outras.

A compreensão inclui, soma.
A compreensão dialoga.
A compreensão insiste em não pensar o mundo em termos de oposições ou de dualismos: certo ou errado, bom ou mau, bonito ou feio, bandido ou mocinho…

A compreensão compreende, entre os seus princípios norteadores, a ideia de complementaridade dos opostos.
E também a ideia de incerteza.

Saber conviver com a incerteza e dela aprender constitui um dos saberes necessários à educação do futuro, sugere Edgar Morin.
Ao invés de certeza, o convívio com ilhas de certeza em meio a um oceano de incertezas, diz Morin.
Ao invés de perfeição, a busca por integridade,

A noção de integridade sugere que os opostos se conversam, que os contrários podem ser complementares.
Um pensamento compreensivo, tanto na academia quanto na vida, acha pobre, triste e causadora de muita depressão a ideia de se trabalhar com certezas, verdades absolutas, conceitos fechados, definições, pontos finais.

Melhor que certezas: caminhos, buscas…
Melhor que conceitos: noções, ideias…
Melhor que pontos finais: vírgulas, reticências, interrogações, exclamações…
Melhor que verdades: a consciência de que o que traz a marca do humano convida para conversarem a verdade com o erro, a certeza com a incerteza, a felicidade com a dor…

Menos “portanto” e mais “talvez”.
Menos explicação, mais compreensão.
Apolo e Dioniso.
Dioniso e Apolo.

Compreender, ensina Hannah Arendt, não acaba nunca, não garante segurança ou certeza alguma, mas é fundamental.
Indispensável.
A compreensão das coisas, a integração, a inclusão em nosso modo de ver o mundo também daquilo que nos amedronta, irrita e que desperta o nosso ódio.
Mundo misturado, ensina Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
O mundo – este nosso mundo, e não outro – como nossa casa, insiste Hannah Arendt.
Compreender o erro, o mal, a perversidade, a violência…, e, no caso específico de Hannah Arendt, compreender o totalitarismo nazista.

Compreender não é sinônimo de perdoar, diz Hannah Arendt.
Mas a compreensão é que nos faz humanos.
Humanos, demasiado humanos (Nietzsche).

Compreender a banalidade do mal, insiste Hannah Arendt.
Compreensão como essencial, como base, inclusive, para uma luta contra o mal, contra a injustiça e a violência.

Na academia há também muito que a compreensão pode ensinar.
Compreender as teorias diversas, os diferentes pontos de vista: integrar, abraçar, pôr para se conversarem.
Compreender as diferentes disciplinas: interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, in-dis-ci-pli-na-ri-da-de…

Compreender os diferentes saberes humanos, as práticas muito diversas de conhecimento.
O saber científico e o saber filosófico, o saber mítico e o saber religioso…
O saber da experiência humana, o saber das artes, o saber comum.
Sem hierarquias.
Sem feudos, muros, cercas e barreiras.
Portas, janelas, pontes e caminhos, em vez de muros e cercas.

O estudo do pensamento compreensivo está na base dos esforços de compreensão do grupo de pesquisa “Da compreensão como método”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

O estudo do pensamento compreensivo reúne há vários anos pesquisadores da Umesp e da Universidade de Antioquia, em Medellín, Colômbia.

A compreensão, mais que uma exigência feliz (mas nada fácil) de toda tentativa humana de compreender o mundo, é uma atitude de vida.
É a base do pensamento democrático e republicano.
É uma aposta no futuro da humanidade.
É um convite a apostar.
Melhor apostar que não apostar (Pascal).

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¹ Ver também: MARTINO, Luís Mauro Sá. “A compreensão como método”. In: KÜNSCH, Dimas A.; AZEVEDO, Guilherme; BRITO, Pedro Debs; MANSI, Viviane Regina (Orgs.). Comunicação, diálogo e compreensão. São Paulo: Editora Plêiade, 2014, p. 17-37. Disponível em: http://www.dacompreensao.com.br/livro-comunicacao-dialogo-e-compreensao.