FUNDAMENTOS TEÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOS DA COMPREENSÃO COMO MÉTODO

Docente responsável (Brasil)

Prof. Dr. Dimas A. Künsch

Instituição

Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

Escola de Comunicação, Educação e Humanidades

Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social

Docente responsável (Colômbia)

Prof. Dr. Raúl Hernando Osorio Vargas

Instituição

Facultad de Comunicaciones

Universidad de Antioquia – Medellín

Resumo

Inserido na linha de pesquisa “Comunicação Midiática, Processos e Práticas Socioculturais” e vinculado aos grupos de pesquisa “Da Compreensão como Método”, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), “Estudios de Periodismo”, da Universidade de Antioquia (UdeA), Medellín, Colômbia, e “Epistemologia do Diálogo Social”, da Universidade de São Paulo (USP), o projeto internacional “Fundamentos Teóricos e Epistemológicos da Compreensão como Método” assume como objeto de estudo o tema da compreensão aplicado prioritariamente ao campo da Comunicação, entendida esta como virtual articuladora de diálogos e conversas não apenas com outros campos consagrados de conhecimento, mas também com expressões diversas e não científicas de produção de sentidos e de conhecimentos sobre o mundo natural e a vida em suas mais distintas formas de expressão. Entre essas manifestações diversas de conhecimento, que incluem mas não se reduzem ao conhecimento científico, encontram-se as artes, os mitos, as religiões, as experiências, os saberes do cotidiano. Metodologicamente, o estudo geral de um conjunto de autores, conceitos e teorias que fundamentam teórica e epistemologicamente o tema da compreensão como método, tanto em suas formulações objetivas quanto subjetivas, se soma aos esforços empíricos individuais de pesquisa (projetos individuais) dos participantes externos e internos do projeto que aqui se propõe, cada um deles com suas pesquisas específicas, seus referenciais teóricos e suas metodologias, à luz, como se pretende, do pensamento compreensivo, dialógico, complexo, comunicativo. Programado inicialmente para durar dois anos (2018-2019), este projeto tem entre um de seus objetivos, como um aspecto importante e afeto à compreensão, o trabalho em conjunto com diferentes grupos de pesquisa, de dentro e de fora do Brasil, começando neste segundo caso inicialmente pela integração de um grupo da UdeA e avançando para outras escolas de Comunicação, dentro da Colômbia mesma e em outros países latino-americanos. Ao final do percurso, pretende-se, por meio da promoção de eventos e da produção científica de artigos e livros, além do diálogo constante entre os distintos interlocutores, ter alcançado maior clareza na compreensão da compreensão como método, de seus principais fundamentos teóricos e epistemológicos. Sob o ponto de vista de uma epistemologia pragmática, o projeto objetiva contribuir para a dialogia social, a democracia, a não-violência e a paz social, sem excluir desses esforços a própria ideia de uma produção acadêmica mais ampla e democrática de conhecimento, que é interdisciplinar e mais que interdisciplinar, integrando práticas de conhecimento com as quais os saberes legitimados são convidados e desafiados a dialogar. Este projeto dá prosseguimento e aprofunda dois projetos de pesquisa anteriores (“Conversando a gente se entende” e “A compreensão como método”), que resultaram numa vasta produção em livros, capítulos de livros, artigos científicos, apresentação de trabalhos em eventos científicos, teses de Mestrado e outros produtos. Três Seminários Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão foram realizados nos três anos que durou o projeto anterior, “A compreensão como método” (2015-2017), os três com apoio da Fapesp. 

Palavras-chave: Comunicação, Epistemologia, Compreensão, Método, Teorias da Comunicação.

Abstract

This project results of a collaboration between the research groups “Comprehension as a Method” (Universidade Metodista de São Paulo, Brazil), “Journalism Studies” (Universidad de Antioquia, Colombia,) and “Epistemology of Social Dialogue” (Universidade de São Paulo, Brazil). Our main research focus is comprehension applied to the field of Communication, here understood as a virtual promoter of dialogue and conversations not only with other fields of knowledge, but also several nonscientific forms of producing knowledge and meaning regarding the natural world and life in its different forms of expression. Among those different manifestations of knowledge – which include but are not restricted to scientific knowledge, we may find art, myth, religion, experience and lore from everyday life. Regarding its methods, the general study of a set of authors, concepts and theories which substantiate the theory and epistemology of comprehension in its objective and subjective formulations, are added to the individual research efforts (individual projects) of the collaborators of this project, each one of them with their own methods, references and researches with the guidance of dialogical, complex, communicational, comprehensive thought. Initially scheduled for a two-year period (2018-2019), this project has as one of its objectives – as a very important and comprehensive aspect – the collaboration between different research groups from Brazil and abroad, starting with a research group from Universidad de Antioquia, Colombia, and then reaching out for other communication schools in Latin America. From the perspective of pragmatic epistemology, this project aims to contribute for social dialogue, democracy, nonviolence and social peace, including in those efforts the notion of a wider and more democratical scholarly production which should be interdisciplinary and also more-than-disciplinary, by integrating practices of knowledge with which legitimized lores are invited to converse with. This project is a follow-up to two previous research projects (“Understanding comes through dialogue” and “Comprehenshion as a method”), both of which have resulted in a vast production of books, book chapters, papers, presentations at conferences, Master’s Theses and other bibliographical products. Three Brazil-Colombia Conferences for Study and Practice of Comprehension were held in December during the three years when the former project was active (2015-2017). All conferences were funded by FAPESP. Through the organisation of conferences and the publication of books and articles, as well as through the constant dialogue between collaborators, by the end of the project we aim to have reached a better understanding of comprehension as a method, of its main fundaments in theory and epistemology.

Key-words: Communication, Epistemology, Comprehension, Method, Communication Theories.

Tema e problema

No imponente Panteão, em Paris, a basílica cristã do século VI segue de diversas maneiras conversando com o templo da nação francesa de hoje. Entre idas e vindas diversas, a basílica-templo presta uma espécie de culto omnívoro a todo tipo de símbolos, opostos às vezes na aparência, complementares quase sempre por detrás da capa do phainomenon, ou seja, daquilo que se mostra ou se deixa ver. No universo dos símbolos que tão fortemente atravessam o viver humano, a vida não é simples.

No Panteão francês, assim como no famoso Arco do Triunfo da Champs Elysées, onde anjos sobrevoam cenas das mais ferrenhas batalhas com uma corneta em uma das mãos e uma espada na outra, o sagrado e o profano se observam um ao outro em momentos da mais pura e diversa hierofania (ELIADE, 2010). Símbolos que, na esteira do Iluminismo, os revolucionários de 1789 renegavam voltariam com força tempos depois, nos vaivéns incessantes das ideologias de plantão e da sempre complexa produção cultural de sentidos sobre cada época da História e sobre o mundo em que se vive. Pretensos inimigos de uma época espreitam por trás de alguma coluna de pedra o rosto entristecido de vencedores vencidos, uns e outros irmanados na mesma e jamais explicável condição humana.

A coisa e o outro lado da coisa encontram-se irremediavelmente em movimento conversacional entre si, de tipo bakhtiniano (BAKHTIN, 2010, 2017; BRAIT, 2005), no amor e no ódio, na sombra e na luz, considerados os diferentes usos históricos da basílica-templo, cuja dialogia atinge os próprios modos como a arquitetura e a arte foram se reinventando no calor das ideias-chave de cada período histórico.

De posições intelectuais diversas em vida, Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778), falecidos no mesmo ano, têm o seu túmulo um de frente para o outro na igualdade assustadora da morte. A Convenção Nacional, escultura que ocupa lugar central na nave da antiga basílica, verdadeiro altar à pátria, disputa a força de seu símbolo com cenas gigantescas da vida de Santa Genoveva, a Padroeira de Paris, nas paredes da mesma nave – vida lida e relida por diferentes artistas de épocas também diferentes.

Aqui, o jogo do certo e do errado, da verdade “mui clara e distinta” de René Descartes em seu Discurso do método (2003), assim como esse outro jogo do ter ou não ter razão, dificilmente se deixam jogar. A consciência esclarecida, que de punho erguido brada por Igualdade, Fraternidade e Liberdade, com ou sem vontade, estabelece laços inquebrantáveis de sentidos com a força incomensurável do inconsciente humano (JUNG, 2001). Um convite se ergue nesse cenário como um apelo: o convite a renunciar a certezas e verdades para ousar uma visão compreensiva, dialógica-complementar, que junta e abraça sentidos, diferentes leituras e visões de mundo, os saberes não eruditos, sabedorias que nem nome recebem nos campos consagrados do conhecimento. Sem seguranças. Sem certezas. Sem explicações definitivas. Renunciando, sobretudo, sempre e onde possível, à verdade entendida como ponto final, para percebê-la em sua complexidade, como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade, “lá onde ela esplende seus fogos”.

Semelhantes transversalidades simbólicas reverenciam temas já tão antigos no Mito e na Filosofia (CAMPBELL, 2005; ARMSTRONG, 2005; ELIADE, 2010)  quanto atuais na Física Moderna (CAPRA, 1984 e 1986; PRIGOGINE & STENGERS, 1992), como por exemplo os princípios da incerteza e da complementaridade dos opostos – essenciais para uma visão de natureza compreensiva tanto da cultura em seu sentido amplo de produção de sentidos sobre o mundo e a vida quanto, especificamente, do próprio processo ao qual, sem escapar a uma certa arrogância, costumamos dar o nome de “produção do conhecimento”. Esses modos distintos de a verdade se apresentar, verdade esta que segundo novamente o poeta é “dividida em duas metades, cada uma diferente da outra”,  se mostram com espantosa frequência aos olhares libertos das amarras de um certo positivismo gnosiológico, uma mirada – esta que se está propondo – atenta aos movimentos multiangulares do Pêndulo de Foucault, a mostrar que a terra gira em torno de seu eixo em movimentos graciosos e não uniformes, para voltarmos a mais um dos símbolos representados no Panteão¹.

Menos de 1.500 quilômetros dali, só para ficarmos na Europa, numa das salas do Museu do Vaticano, a antiga Stanza della Segnatura dos pontífices católicos do século XVI, o jovem Raffaello de Sanzio (1483-1520) deixou impressas para a posteridade, num afresco de cerca de 35 metros quadrados, na obra “A Escola de Atenas” (aproximadamente 1509-1511), sua visão de como o Mito, a Religião, as Ciências da época, a Filosofia  e os Saberes da Experiência têm muito a conversar entre si, sem contar os diferentes diálogos com a Teologia, o Direito e a Poesia, os outros três afrescos da mesma sala celebrativos da complexidade, multiangularidade e pluralidade dos modos de se perceber o esforço humano por compreender de algum modo, por narrar e integrar os sentidos possíveis sobre a origem e o destino de nós mesmos, sobre o mundo em que vivemos e sobre as formas que às vezes a duras penas encontramos de nele nos orientarmos. E a proposição do abraço compreensivo de sentidos e de orientação nos remete à crítica a uma possível e infelizmente nada incomum arrogância no que se propaga na academia como “produção de conhecimento” – uma ideia esta não raramente assumida sem dor nos moldes do mais elevado Positivismo. Como se viver tivesse algum dia deixado de ser complicado! Como se o Real se desse a conhecer em sua mais pura essência!

O ensaio artístico do jovem Raffaello, numa espécie de altar que faz lembrar de tantos modos o Panteão francês, coloca no centro do imenso quadro e sob a proteção dos deuses Apolo e Minerva dois dos mais famosos ícones do pensamento filosófico da Grécia Clássica, Platão e Aristóteles, um apontando para o alto (Platão, com a noção central das ideias eternas e o apelo erótico a fugir da caverna fria e dos simulacros da doxa) e o outro, para o chão (Aristóteles, com sua ideia-chave de que nada existe na mente que não tenha passado antes pelos sentidos e seu apelo à empiria). Nas cores das vestes dos fundadores da Academia (Platão) e do Liceu (Aristóteles), a lembrar os elementos Terra, Ar, Água e Fogo, o dedo platônico dialoga com a mão aristotélica, a Razão com os Sentidos. E a mais pura Abstração bate papo com a complementaridade da Experiência, com as dúvidas, incertezas e promessas de uma e de outra².

Princípios que abraçam, se colocam em relação, que tecem e entretecem diálogos possíveis entre as coisas e as formas de essas coisas se apresentarem (phainomenon), se significarem e serem significadas, na dinâmica incansável da cultura, tais como, mais uma vez, a incerteza e a complementaridade dos opostos, assim como a polifonia e a polissemia de saberes, a pluralidade de ângulos e perspectivas aconselháveis no movimento de aproximação ao Real. Nietzsche, em Genealogia da moral, sugere algo que vai nessa linha quando diz que “quanto maior o número de olhos, de olhos distintos que saibamos empregar para ver uma mesma coisa, mais completo será nosso ‘conceito’ a respeito dela, mais completa será nossa ‘objetividade’” (apud SOUSA, 2011, p. 19), o que Douglas Kellner, apresenta em A cultura da mídia (2001) como método “multiperspectívico”. Inclui-se nesse vasto espectro de buscas e preocupações de natureza teórica e epistemológica a crítica à Ciência e à Razão, quando elevadas, sem respeito para com a miríade de práticas humanas de saber, à categoria do Positivismo e do Racionalismo, tanto quanto a crítica à camisa de força do Determinismo (SANTOS, 1989)³.

Sobre alguns dos resultados parciais alcançados nessa busca e outros tantos propósitos futuros encerrados no projeto de pesquisa que aqui se apresenta e em outros projetos que virão, sendo este intitulado “Fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método” e aplicado à Linha de Pesquisa “Comunicação Midiática: Processos e Práticas Socioculturais” do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo”, trataremos na sequência. A Justificativa, que inclui também um Histórico do atual projeto, abre espaço na sequência à sua Descrição, seus Objetivos, Referenciais Teóricos e Metodologias. Um Cronograma de Atividades vem antes das Considerações Finais e de um conjunto de Referências, ainda em aberto.

Uma pesquisa científica que se proponha como tal no mundo da academia, além de um objeto que se pretende como um recorte específico de um campo também específico do tão disputado Real, necessita de uma questão, um problema, algo assim como uma inquietude na mente do pesquisador. Cuidemos disso desde já: o problema, em sua face supostamente negativa, é o de um modelo tradicional e muito bem situado de pensamento que dá mostras, já há bastante tempo, de se distanciar cada vez mais de uma visão plural, democrática e dialógica de mundo. Observado pelo seu lado positivo, esse mesmo problema manifesta a disposição de observar, imaginar, atestar e testar formas de trabalho e de pesquisa, a começar pelo campo da Comunicação, assentadas de diferentes maneiras nas virtualidades de um pensamento compreensivo.

O “supostamente” anterior não entrou ali por acaso: compreensivamente – e isso transforma o jogo da pesquisa em algo mais instigante a ao mesmo tempo mais complicado –, presume-se que o “negativo” e o “positivo” tenham o tempo todo a ver um com o outro, de muitas e às vezes insuspeitáveis maneiras. E essa dificuldade, convém anotar, talvez se concentre em torno principalmente da indispensável atenção para o fato de que não vale a pena que um reducionismo substitua a outro, nem mesmo em nome de pretensas boas intenções. Não existem dogmas bons e dogmas ruins, mas dogmas. No mundo das buscas compreensivas, o antigo e o novo se compõem e recompõem a seu modo, a revelar que Colombo já pôs o ovo em pé.

Este projeto de pesquisa, como anunciado em seu resumo, reúne pesquisadores brasileiros e colombianos e está aberto à participação de outros pesquisadores de dentro e de fora dos dois países. No Brasil, está vinculado aos grupos de pesquisa “A Compreensão como Método” (nome provisório), da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), e “Epistemologia do Diálogo Social”, da Universidade de São Paulo (USP), e, na Colômbia, ao grupo de pesquisa “Estudios de Periodismo”, da Universidade de Antioquia (UdeA), de Medellín.

Justificativa

O presente projeto de pesquisa é herdeiro e sucessor de dois projetos anteriores, sendo o primeiro deles “Conversando a gente se entende” (2010-2014) e, o segundo, “A compreensão como método” (2015-2017), ambos desenvolvidos junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero, onde o responsável por este novo projeto trabalhou, na graduação e na pós-graduação, entre os anos de 2004 e 2017.

Em sua descrição original esse primeiro projeto dizia procurar “explorar as dimensões de uma epistemologia compreensiva da comunicação em situações de resolução de conflitos”. Seus objetivos eram os de identificar o espaço da Comunicação como estratégia de mediação de conflitos, verificar os pressupostos epistemológicos da construção das narrativas no interior dessa mediação e avaliar as condições de possibilidade de práticas compreensivas, tanto no sentido cognitivo quanto das relações intersubjetivas e de uma ética cidadã 4.

O tema de uma epistemologia compreensiva gerou no período dissertações de Mestrado, textos apresentados em eventos científicos da Área, artigos científicos, capítulos de livros e uma obra final, a coletânea Comunicação, diálogo e compreensão (Plêiade, 2014), organizada por este Autor junto com três de seus (ex-)orientandos de Mestrado, Guilherme Azevedo, Pedro Debs Brito e Viviane Mansi  (KÜNSCH; AZEVEDO; BRITO; MANSI, 2014). Esta e as demais obras publicadas no seio de ambos os projetos foram produzidas em sistema Creative Commons, segundo a ideia, cultivada com carinho no âmbito das pesquisas sobre a compreensão, de que conhecimento é para ser compartilhado, dividido, socializado, de preferência.

As origens mais remotas desse projeto, no entanto, encontram-se parcialmente já na Dissertação de Mestrado do Autor, defendida em 1999 e publicada em livro no ano seguinte (KÜNSCH, 2000) pela Annablume/Fapesp. Mais expressamente e com maior vigor, a noção elementar de um pensamento e de uma epistemología compreensivos vê-se representada na Tese de Doutorado do Autor, O Eixo da Incompreensão: a guerra contra o Iraque nas revistas semanais brasileiras de informação, defendida em 2004 e neste momento no prelo pela Editora Appris (KÜNSCH, 2004).

A ideia de um pensamento complexo, como concebida por Edgar Morin (1999, 2015) é relida nesse trabalho sob a mirada de uma epistemologia que, no respeito irrestrito a essa complexidade, renuncia ao Positivismo (e o fazem em defesa da Ciência), ao Racionalismo (e o faz em defesa da Razão) e a diferentes formas de Determinismo (e o faz em defesa das Multicausalidades) para pensar o conhecimento para muito além da identificação simplista entre conhecimento e ciência 5, configurando-se, então, como prática social multidisciplinar, plural, dialógica, no sentido de uma expressão utilizada pelo próprio Morin em A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento (2003), que é a da “democracia cognitiva”.

Fortaleceu-se nesse período a percepção de que a miríade de formas de linguagem e expressão da busca humana por conhecimento e por orientação no mundo – no fundo, a ideia de se construir pela via das mais diferentes narrativas um cosmos possível em meio ao caos das incertezas e inseguranças da vida (MEDINA, 2003)6 – poderiam ser “tecidas em conjunto” (Morin), compreensivamente, num embate com certos reducionismos de saberes e de sentidos e abrindo dessa forma caminho para o diálogo – sempre muito difícil, aliás, uma aposta, talvez na linha do que propõe Pascal (1623-1662) para o salto no escuro da fé em Deus (SANTOS, 2008) –, a conversa e o entendimento entre autores, teorias, formas antigas e novas de saber e de viver, numa associação desejável entre uma epistemologia de tipo teórico-cognitivo e uma epistemologia pragmática, aquela que, na visão de Santos (1989), se pergunta pelas consequências sociais e políticas de suas ações.

Numa expressão palpável do passo a ser dado na sequência, quando foi em abril de 2015, o livro que resultou do projeto foi lançado na Faculdade de Comunicações da Universidade de Antioquia (UdeA), Medellín, Colômbia, num momento em que, no contexto do convênio de cooperação assinado no final de 2014 entre as duas instituições, a Cásper Líbero e a UdeA, pesquisadores brasileiros e colombianos se uniam para um trabalho conjunto, de caráter interinstitucional e internacional, no projeto “A compreensão como método: suas teorias e práticas” (2015-2017), que constituiu, como adiantado, o segundo nessa trajetória de pesquisa. A coordenação brasileira ficou a cargo do Autor, e a colombiana, do Prof. Dr. Raúl Osorio Vargas, da UdeA.

Mais de 30 pesquisadores brasileiros de todos os níveis (da graduação ao pós-doutoramento, passando por cursos de especialização) e uma dezena e meia de mestres e doutores colombianos de diferentes áreas, pertencentes aos grupos de pesquisa “Grupo de Estudos Literários” (GEL) e “Estudos em Jornalismo”, se juntaram nesse projeto para, cada um a partir de seu campo específico de interesse – e este, adiante-se, constitui um dos elementos importantes da metodologia proposta também para o projeto atual –, por meio do estudo, da reflexão, da pesquisa e da produção científica, “favorecer o mais completo entendimento possível das bases filosóficas, científicas, epistemológicas, humanas e metodológicas do tema da compreensão”, como se dizia na descrição do projeto.

Esse segundo projeto, como também se dizia, possuía tanto uma aproximação de natureza teórica quanto prática – relembrando mais uma vez o tema de uma epistemologia pragmática –, como se deixava ler em seu próprio título:

Assim, ao esforço teórico de aprofundamento da conversa com distintos autores, vertentes teóricas, modelos interpretativos, grupos e projetos de pesquisa, noções e percepções aptos a promover o entendimento da compreensão, somam-se as buscas pelos diferentes significados, propostas e virtualidades da compreensão como método no interior de distintas investigações, levadas a cabo pelos participantes do projeto tanto no Brasil quanto na Colômbia. Opera-se com a ideia de que os dois tipos – diferentes, mas complementares – de aproximação devem contribuir para a compreensão da compreensão e para a fertilização da investigação teórica e empírica, além das práticas sociais em que essas ideias de compreensão possam se ancorar 7.

O objetivo geral foi assim expresso:

Mapear, estudar, dialogar com e compreender algumas das mais importantes elaborações da ideia ou noção de “compreensão” nos campos das ciências, da filosofia, das artes e da literatura, da epistemologia e outros, bem como de suas ideias correlatas, tal como se apresentam na obra de pensadores que, por suas escolhas teórico-metodológicas, vinculam-se a uma perspectiva de abertura para a alteridade, entendida aqui não apenas como um outro sujeito, mas também como outras formas de pensar, de investigar, de narrar e de compreender o mundo. A esse objetivo, de natureza mais teórica, junta-se a busca por compreender a compreensão, de forma aplicada, em distintos projetos específicos de investigação dos participantes do projeto.

Entre os objetivos específicos destacavam-se os seguintes:

Contribuir para a elaboração de um conjunto de sugestões teórico-metodológicas que possam auxiliar na produção científica e no estudo de textos, imagens, produtos e processos midiáticos sob uma ótica compreensiva, dialógica, de escuta e reconhecimento do Outro, de produção social, interdisciplinar e inter-saberes de conhecimentos, que, sendo compreensivos, estejam por isso mesmo mais afetos à ideia de cidadania, de democracia e de paz.

Integrar no contexto de um pensamento compreensivo as teorias e práticas de natureza inter- e transdisciplinar.

Destacar a relevância da Comunicação em todas essas buscas compreensivas.

Esses três objetivos específicos podem com todo direito ser recuperados, ainda com maior ênfase, para dentro do projeto atual, como se verá adiante. O projeto “A compreensão como método” contou com uma produção mais ampla, vigorosa e profunda que a do projeto anterior. Em resumo, eis uma lista das principais produções bibliográficas e técnicas:

  1. Três Seminários Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão, sempre nos primeiros dias do mês de dezembro dos anos de 2015, 2016 e 2017, os três com apoio da Fapesp, reunindo pesquisadores brasileiros e colombianos associados ao projeto, além de convidados. O último desses seminários, celebrado de 4 a 8 de dezembro de 2017, contou com 11 mesas temáticas, mais de 70 trabalhos apresentados, além de conferências, uma delas para tratar especificamente do tema da paz na Colômbia, intitulada “Da guerrilha para a política: os acordos de paz na Colômbia” 8.
  2. Três livros lançados (Comunicação e estudos e práticas de compreensão, em 2016; Produção de conhecimento e compreensão e Para compreender o método da compreensão, em 2017), coletâneas reunindo textos dos pesquisadores brasileiros e colombianos, e pelo menos mais três outros livros a ser lançados na continuação, já no âmbito do projeto a ser desenvolvido em 2018 e 2020 como aqui se propõe.
  3. Uma edição especial da revista Líbero, do Brasil (v. XIX, n. 37-A, jul./dez. 2016) e uma da revista Folios, da Colômbia (n. 35 y 36, enero-diciembre 2016).
  4. Dissertações de Mestrado, livros autorais e capítulos de livros, apresentações de trabalho em eventos científicos (dois textos apresentados no Encontro Anual da Compós, em 2016 e 2017), artigos (Um deles na revista Galáxia, Qualis A2, em 2017)) e ensaios.
  5. Um site do grupo de pesquisa “Comunicação, Diálogo e Compreensão”, hoje “Da Compreensão como Método”, produzido no final de 2017 (<http://www.dacompreensao.com.br>).
  6. Outros tipos de produção técnica 9.

Essa rápida visão histórica das pesquisas e produções do Grupo de Pesquisa “Comunicação, Diálogo e Compreensão” assume neste contexto pelo menos dois significados importantes: atestar em primeiro lugar que há um esforço compreensivo de pesquisa que vem de anos e que se vai consolidando com o tempo e, segundo, garantir que, com diferentes recortes possíveis, essa pesquisa se anuncia para o futuro num terreno que, aberto à novidade, se veio de distintas formas preparando.

E este, o da continuidade e da produção coletiva de conhecimento sobre o tema da compreensão, com suas implicações acadêmicas, sociais e políticas, nos parece o mais importante argumento de justificação da proposta atual. Não bastasse isso, poder-se-iam rememorar os esforços que vêm sendo feitos, dentro e fora do Brasil, em favor do rompimento dos limites disciplinares em direção à inter- e à transdisciplinaridade. Observe-se, no entanto, que o pensamento da compreensão, para além das disciplinas que podem e devem conversar entre si, pensa o conhecimento numa envergadura mais ampla, abrindo espaço, nesse abraço compreensivo, para as mais distintas formas de conhecimento e de saberes práticos.

Por fim, mas não menos importante, a história recente do Brasil tem sido pródiga na apresentação de exemplos de ruptura do diálogo social e político e de afirmação das mais distintas formas de autoritarismo e desrespeito às normas da Constituição e ao pensamento democrático.

Descrição do projeto

Mantendo uma aproximação estreita com os projetos de pesquisa anteriores e também com os Grupos de Pesquisa “A Compreensão como Método” (Universidade Metodista de São Paulo – Título ainda provisório) e “Epistemologia do Diálogo Social” (Universidade de São Paulo), do Brasil, e “Estudios de Periodismo”, da Colômbia, o presente projeto, “Fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método”, retoma, renova e aprofunda estudos até o momento realizados e oferece um novo enfoque às pesquisas dos mesmos grupos, com novos recortes.

O recorte na área mais abrangente de estudos da compreensão se dá, de modo particular mas não único, no sentido de explicitar, sustentar teoricamente e mostrar nas práticas plurais de pesquisa que se desenvolvem na esfera da Linha de Pesquisa “Comunicação Midiática, Processos e Práticas Socioculturais”, e em outros campos abrangidos pelo projeto, como se evidencia o potencial cognoscitivo e humano de um conjunto aberto de instrumentos teóricos e técnicos que podem ser nomeados como fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método.

Entende-se, como se verá adiante na enumeração dos objetivos do projeto e em sua fundamentação teórica, que esses princípios ou fundamentos proponham laços de dialogia com visões aptas a objetivar a superação de formas estanques de se perceber a produção geral de conhecimento e de sentidos sobre o mundo no qual vivemos, em namoro com uma democracia de saberes tanto quanto com a democracia política, a cidadania e a paz social.

Entende-se, ainda, com Morin (2015), que formas mutiladas ou não complexas de conhecimento levam a práticas igualmente mutiladoras. Ou com Maffesoli (2010) e Sodré (2006), que um distinto entendimento de conceitos como os de verdade e certeza, na esteira de um certo cartesianismo epistemológico, encerra mais que um viés de teor dogmático: representa algo como um apelo ao desrespeito e à violência contra o diferente, contra o Outro e contra formas distintas de se ver, experimentar e significar o mundo.

O mesmo se pode dizer de uma acepção de ciência que não dialoga com outras narrativas e saberes. Propõe-se aqui que uma epistemologia compreensiva se dê melhor no trato com a ideia de menos portanto e mais talvez, mais vírgulas e interrogações que pontos finais, mais noções que conceitos (KÜNSCH, 2009). Que o que chamamos Signo da Compreensão não deve ser suplantado pela frequente, mas não necessária, arrogância do Signo da  Explicação (KÜNSCH, 2014). Que saber, afeto e ternura, com bom proveito para as práticas de conhecimento, podem dialogar com a Comunicação e com as demais áreas de conhecimento (KÜNSCH, 2011; RESTREPO, 1998). Que aquém e além do conceito esteja a compreensão (KÜNSCH, 2009a). Que o ensaio, sem renegar o artigo, resgate no entanto a própria dignidade no jogo das formas de expressão do pensamento científico e não científico (KÜNSCH; CARRARO, 2012). Que a compreensão, mantendo-se cuidadosa o tanto quanto possível em seus propósitos, se sobreponha democraticamente a certas formas de pensamento “avassalador” (KÜNSCH, 2008). Que narrativas compreensivas voltem a propor o caráter terapêutico potencial da palavra (KÜNSCH; SILVA, 2015). Que na comunicação midiática, nos processos e práticas socioculturais, nos confrontos com as tecnologias de comunicação e informação e com as redes, a Comunicação tenha a chance de se sobrepor à Não-Comunicação, a compreensão ao ódio, a paz à violência (KÜNSCH, 2004, 2005, 2007).

Montado para ser inicialmente desenvolvido num período de dois anos (2018-2019) conforme Cronograma a ser apresentado mais adiante, o projeto deve integrar desde discentes da Graduação em Comunicação e em outras áreas, de Iniciação Científica e de cursos de Especialização até mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo e de outras instituições.

Objetivos

Mantida a natureza epistemológica da investigação e o problema central de identificar, aprofundar e testar prioritariamente na prática da pesquisa em Comunicação um conjunto de princípios que conversam com os propósitos fundamentais de um pensamento compreensivo, que integra, junta, abraça, põe para dialogar distintos conceitos, teorias, campos de saber consagrados e não consagrados cientificamente, podemos explicitar do seguinte modo o Objetivo Geral do presente projeto:

Buscar entender e fazer da Comunicação o lugar privilegiado de práticas compreensivas, dialógicas, democráticas de convivência e de multiangular fertilização entre a ciência e outras formas de conhecimento, entendendo-se que os saberes científicos, míticos, religiosos, filosóficos, artísticos, cotidianos e outras formas que se possam nomear participam, cada um a seu modo, dos esforços humanos para compreender o mundo, significá-lo, narrá-lo, buscar formas de nele poder se orientar.

Essa ampla produção individual, grupal e social de sentidos, no bojo de formas possíveis de compreensão, tanto no nível do conhecimento quando da vida social, pode encontrar na Comunicação um campo fértil para a superação das divisões, do ódio e da violência, bem como o suporte para diferentes buscas de compreensão e de comunicação. Desse modo, em se realizando, a Comunicação como construção de vínculos em primeiro lugar entre pessoas refaz e realiza o mais antigo e profundo de seus sentidos, lá onde ela, distinguindo-se da pura troca de informações bem como dos aparatos que a tornam possível tanto quanto às vezes a sufocam, estabelece laços, constrói pontes e abre janelas em lugares, dentro e fora do universo do conhecimento, onde não raro dominam não mais que simples conexões e em que muros são levantados e fossos, escavados 10.

Esse objetivo macro, que visa a destacar em todo esse esforço compreensivo o lugar e a relevância da Comunicação, se deixa melhor visualizar num conjunto de Objetivos Específicos, quais sejam os de:

a) contribuir para a elaboração de um conjunto de sugestões teórico-metodológicas que possam auxiliar na produção científica e no estudo de textos, imagens, produtos ou processos midiáticos sob uma ótica compreensiva, dialógica, de escuta e reconhecimento do Outro, de produção social, interdisciplinar e inter-saberes de conhecimentos, que, sendo compreensivos, estejam por isso mesmo mais afetos à ideia de cidadania, de democracia e de paz, trabalhando-se nesse âmbito o tema principal dos princípios epistemológicos da compreensão;

b) integrar no contexto de um pensamento compreensivo as teorias e práticas de natureza inter-, trans- e multidisciplinar, com o olhar sempre atento, também, para as formas “não disciplinadas” de saber;

c) retomar e ampliar, no sentido aqui indicado, uma discussão que vem desde o século XIX sobre uma diferença entre o Verstehen (compreender) e o Erklären (explicar), sendo a compreensão, na visão de um de seus primeiros proponentes, Wilhelm Dilthey (1833-1911), o método mais adequado à construção do estatuto científico das Geisteswissenschaften, ou Ciências do Espírito. Essa retomada e essa ampliação visam atrair o olhar para além do campo puramente científico, de modo a se fixá-lo no terreno mais vasto e panorâmico da produção de conhecimento, bem como para as práticas compreensivas, de tipo Eu-Tu (Buber, 2003);

d) contribuir para assegurar ao pensamento comunicacional brasileiro um lugar de relevância no campo dos estudos de Comunicação;

e) contribuir para garantir ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo o seu lugar histórico de destaque no universo dos estudos brasileiros de Comunicação e a produção intelectual de acordo com os padrões exigidos pela Capes.

f) assumir, pela Universidade Metodista de |São Paulo, reforçar e ampliar o convênio de cooperação acadêmica com a Universidade de Antioquia e com outras universidades da Colômbia e de outros países latino-americanos, em estreito diálogo com os responsáveis pela internacionalização da Universidade Metodista.

Referencial teórico

A compreensão, diz Hannah Arendt (2008), constitui um modo de ver e pensar o mundo que, iniciado em algum momento da vida da pessoa, nunca terá fim. Não trabalha com a ideia de verdade, nem oferece qualquer segurança. No entanto, é a maneira propriamente humana de nos sentirmos como cidadãos deste mundo, onde o mal pode assumir formas banais de existência. A banalidade do mal, um conceito arendtiano pensado a partir da experiência do totalitarismo nazista (ARENDT, 2000), também precisa ser integrada, compreendida em nossos investimentos de fôlego e energia por nos situarmos nesta nossa casa que é o mundo. É a condição humana e política, deixa claro Arendt (2008), para se encetar uma luta contra o próprio totalitarismo.

A compreensão de que fala Hannah Arendt, que inclui essa parte mais profunda de nos sentirmos solidários na própria desgraça em que os humanos às vezes transformamos o mundo, dialoga de algum modo – no sentido do verbo latino comprehendere, que é o de incluir, integrar –, mas está longe de se identificar com uma discussão que vem do século XIX, a partir de Wilhelm Dilthey, encontrando uma saída possível em Max Weber (1991), sobre as diferenças entre o Compreender (verstehen) e o Explicar (erklären) no universo científico. Distante de uma preocupação de cunho metodológico, a compreensão de que fala Arendt, no entanto, tem significados tanto de natureza social e política quanto gnosiológica, é intersubjetiva e também se propõe como uma atitude que favorece um certo conhecimento do mundo e de nossas práticas em seu interior. Não se restringe ao campo científico nem o exclui. Compreende.

Com um viés mais ou menos próximo das distinções entre verstehen e erklären, não são poucos os autores que em distintas áreas das Humanas e Sociais ousam sugerir uma mirada compreensiva (o que não raro têm a ver com uma hermenêutica que privilegia métodos ditos qualitativos), como é o caso de Maffesoli, por exemplo, em O conhecimento comum: introdução à sociologia compreensiva (2010), ou de Kaufman quando propõe A entrevista compreensiva como um guia para a pesquisa de campo (2013).

O pensamento compreensivo, como aqui se propõe, se entende tanto no nível humano, da intersubjetividade ou de uma certa ética compreensiva, quanto da ciência englobando, ou compreendendo, para além da própria ciência, o vasto campo dos conhecimentos e das práticas humanas de que se tecem a vida e o mundo. Só uma ideia ingênua de ciência, da natureza positivista (SANTOS, 1989), a identifica com conhecimento. Essa identificação, duramente criticada, por exemplo, por Adorno em O ensaio como forma (1986), além de outras confusões e do serviço negativo que presta à própria Ciência, costuma identificar igualmente a ordo idearum – fundada em conceitos absolutos de tipo universal – com a ordo rerum. Nesse Olimpo em cujos altares reina absoluta a Ciência, ou melhor, o Positivismo, uma muito mais ampla, rica e multiforme produção de sentidos e de linguagens por meio das quais esses sentidos adquirem expressão é relegada a uma condição de puro desprestígio. Nesse Olimpo, mais uma vez, não há lugar para formas não consagradas de saber. Nele, o homo simbolicus (Cassirer) não adquire vez nem voz.

A compreensão compreende, junta, estabelece relações. E compreender a compreensão em alguns dos princípios epistemológicos em que ela se deixa ver e praticar é o que se busca neste projeto. Retomando um esforço já visível no projeto anterior, o atual projeto, em diálogo com teorias que elaboram, explicitam e propõem a ideia de compreensão, assume o estudo de um conjunto de autores que, seja no campo primordialmente epistemológico (Weber, Dilthey, Morin, Maffesoli, Jung, Feyerabend e outros), seja no campo ético e político (Buber, Levinas, Bohm, Said, Hannah Arendt e outros) como da estética e da narrativa (Schleiermacher, Nietzsche, Ricoeur, Cassirer, Langer e outros), contribuem para a formulação de uma noção de compreensão, para a partir dessa noção – que vem sendo trabalhada há pelo menos dez anos por muitos dos integrantes internos e externos do atual projeto – trazer à luz, para testar na prática da pesquisa em Comunicação, alguns de seus mais importantes princípios epistemológicos.

Nunca é demais insistir na ideia, manifestada por Hannah Arendt e repetida com frequência no interior do Grupo de Pesquisa a que este projeto se vincula, de que a compreensão é uma atitude em primeiro lugar da alma, difícil, infindável, tanto quanto é difícil a arte de traduzir em diálogo nossas práticas e nossas linguagens cotidianas. Jerome Kohn (ARENDT, 2008, p. 8) diz de Hannah Arendt que ela, “do começo ao fim (…) sempre sentiu uma atração irresistível pela atividade de compreender, uma atividade mental circular e interminável cuja principal significação, para ela, consistia mais no próprio exercício que nos resultados”. Assim o expressávamos num texto intitulado “Princípios inspiradores da compreensão como método” (KÜNSCH; DIAS; PASSOS; FERNANDES; BRITO, 2017a, p. 11):

Jamais uma obviedade, e às vezes mais provável de não acontecer, o diálogo pertence à natureza mais profunda de um pensamento compreensivo que abraça, integra, põe para conversar umas coisas com as outras; os múltiplos conhecimentos, sabedorias, experiências e práticas humanas; as teorias e os conceitos mais diversos; as noites escuras da existência e os dias ensolarados; nosso tão pequeno e valoroso mundo da consciência e a vastidão de fenômenos diante dos quais a razão humana só se deixa mesmo escrever com letras minúsculas. Tragédia e comédia. O real mais denso e forte e a irrealidade como sua inquieta parceira. Nossas imensas sombras e maldades lado a lado com a generosidade, o amor, a amizade, o altruísmo, o encanto do viver.

Uma importante fonte das buscas por esses princípios epistemológicos é constituída pela própria produção bibliográfica dos integrantes do Grupo de Pesquisa, parte dela apenas citada nas Referências. Nela se encontram contribuições vitais sobre temas como incerteza e complementaridade dos opostos (a partir da Física Moderna tanto quanto do Mito e da Arte, bem como de filósofos como Heráclito, Nicolau de Cusa e outros), multiperspectividade (a partir de Nietzsche), a linguagem do ensaio (a partir de Montaigne, Adorno e outros), as relações de tipo Eu-Tu ou Sujeito-Sujeito (a partir de Buber, Lévinas, Bohm, Medina e outros), a Comunicação como diálogo (a partir de Buber, Paulo Freire, Vilém Flusser e outros), a renúncia a uma ideia fixa e absoluta de verdade e certeza, mais noções e menos conceitos etc.

Susanne Langer (2004; 2007) trabalha com a ideia de que são as perguntas, mais que as respostas, que auxiliam na descoberta do perfil intelectual de uma época. O pensamento compreensivo se dá bem com essa ideia, por entender que respostas, assim como em geral, embora não necessariamente, conceitos e definições, fecham em vez de abrir. Costumam colocar um ponto final em lugares em que uma ideia de compreensão pode preferir vírgulas, reticências, interrogações e até exclamações.

É no interior desse universo de busca e de ideias que se move o projeto, cujo objetivo geral, convém repetir, é o de assumir o papel da Comunicação como construtora de diálogos, vínculos e relações. Em sua parte empírica, o projeto, como também ocorreu no projeto de pesquisa anterior, integra uma lista aberta de projetos, que vão desde a Iniciação Científica, até o Mestrado e o Doutorado em Comunicação, cada um com seus referenciais teóricos específicos. Desse modo, a lista de referências se amplia muito, integrando de forma direta e indireta as escolhas individuais dos pesquisadores que integram o projeto. A liberdade de espírito que o ensaio evoca, na visão de Adorno (1986) permite diálogos os mais diversos lá onde, a partir da Comunicação, se ensaia a compreensão da compreensão.

Metodologias

Aproveitando-nos de algumas das intuições metodológicas do projeto anterior, entendemos que a parte teórica deste projeto consiste basicamente numa leitura em profundidade de textos importantes de um conjunto de autores, buscando compreensivamente entender como o tema da compreensão, em sentido objetivo e (inter)subjetivo, e especificamente alguns princípios epistemológicos de matriz compreensiva emergem a partir das preocupações de cada um deles. O fato de esses autores estarem ligados a áreas do saber diferentes é, em si, uma variável importante: o diálogo dos saberes é uma das buscas de uma Teoria Compreensiva da Comunicação.

Continua sendo o mapeamento inicial dessas produções e seu estudo aprofundado o locus do encontro possível não de uma, mas de várias noções dialógicas de compreensão, e consequentemente de diferentes miradas compreensivas sobre os objetos individuais de pesquisa. A investigação, nesse instante específico, é teórica mas não especulativa: o recorte não busca o fechamento de uma única definição – o que seria por si só incompatível com a perspectiva teórica adotada –, mas a formulação de uma perspectiva aberta, fundada no encontro de noções/definições que, em suas peculiaridades, podem ser colocadas em diálogo conforme suas possibilidades hermenêuticas, éticas e epistemológicas.

A metodologia, na parte empírica do projeto, como adiantado, pode-se igualmente denominar compreensiva, uma vez que respeita e assume os distintos encaminhamentos dados à questão por parte dos diferentes pesquisadores que integram o projeto, em suas investigações particulares. Aqui, a pergunta norteadora é como compreender e aplicar a compreensão como método nas práticas cotidianas dos pesquisadores. Entende-se, neste particular, que vários dos autores, apontados como de interesse para o estudo da compreensão, sirvam, de forma privilegiada, como referenciais teóricos para os projetos de natureza individual. Os títulos dos projetos individuais de pesquisa aparecem páginas atrás associados aos nomes dos integrantes internos e externos do projeto. A lista dos integrantes internos e externos deve se ampliar com o correr dos dias.

Particularmente, sem fechar as questões de pesquisa, pretende-se que cada um dos pesquisadores, fugindo ao jogo simples das racionalizações, do compromisso inarredável com uma ideia fixa de verdade, e do centramento no científico – sem renunciar a ele –, experimentem se aproximar de princípios como o da complementaridade dos opostos ou o da incerteza, da dialogia dos saberes etc., ou da forma de expressão do ensaio, simultaneamente ao próprio estudo do estatuto teórico e epistemológico desses mesmos princípios. Nesse sentido, a compreensão como método não institui um método acima ou ao lado de outros métodos possíveis, ou um para-método, mas antes uma forma de construir pontes e diálogos possíveis entre diferentes métodos também possíveis, cultivando-se a ideia de que, inclusive, formas academicamente não ortodoxas de aproximação ao mundo em seus diferentes níveis e modulações possam ser convidadas a fazer parte da conversa. Talvez seja o caso de recordar neste contexto que a multiperspectividade, de raiz nietzscheana, constitui um dos princípios epistemológicos que o pensamento da compreensão entende dever propor.    

Outras metodologias, que se juntam às preocupações anteriores, incluem rodas de conversas (com convites a integrantes e a não-integrantes do projeto a debater temas específicos de estudo), seminários, colóquios, produção de artigos e de livros, apresentação de trabalhos em congressos científicos, divulgação pelas redes sociais, vídeos etc. Parte integrante da metodologia de estudo e de produção de conhecimentos pode consistir na realização periódica (uma vez por semestre) do que convencionamos chamar de Encontros Gastrosóficos, unindo saber e sabor (ALVES, 2011) na experiência de cozinhar e de comer juntos, cultivando uma iniciativa que vem dos tempos do projeto de pesquisa anterior (2010-2014), no Brasil, denominado “Conversando a gente se entende” 11.

Há que se levar em conta, em toda a pesquisa compreensiva, que o cultivo do diálogo entre o objetivo e o subjetivo ou entre o consciente e o inconsciente são condições precípuas para a ruptura de todo dogmatismo epistemológico e de todo reducionismo. Tradicionalmente, o objetivo tem sufocado o subjetivo, numa tradição científico-filosófica como a nossa que constrói e se alimenta de dualismos lá onde um pensamento compreensivo trabalha com a ideia de complementaridades. Duas observações podem ser usadas aqui, como reforço para um certo tipo de pensamento que se está querendo realçar. A primeira sublinha que “o perigo na pesquisa não vem tanto dos riscos da aventura, mas do excesso de garantias metodológicas” (MACHADO, 2010, p. 28), e a segunda, que “às vezes, o que falta a jornalistas e pesquisadores não é a objetividade, mas a subjetividade” (MACHADO, 2010, p. 23).   

Cronograma

Planejado para dois anos (2018-2019), o trabalho no interior do projeto de pesquisa se estende na prática por cinco semestres, cujas principais ações podem ser assim enumeradas:

Primeiro semestre de 2018

  • Submissão de texto para o XXVII Encontro Nacional da Compós;
  • Recomposição do Grupo de Pesquisa, agora sob o nome de “Da compreensão como método”, pela Universidade Metodista de São Paulo, no Diretório de Grupos de Pesquisa do Brasil, do CNPq;
  • Publicação de artigo científico Qualis B2 a A1;
  • Preparação dos originais de dois livros a partir dos melhores e mais bem avaliados trabalhos do III Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão (São Paulo, 4 a 8 de dezembro de 2017);
  • Preparação dos originais do livro que traz a tese de doutorado do Autor, “O Eixo da Incompreensão: a guerra contra o Iraque nas revistas semanais brasileiras de informação geral”;
  • Reuniões mensais do grupo de pesquisa;
  • Orientação de projetos de mestrado e de doutorado.

Segundo semestre de 2018

  • Lançamento de dois livros a partir dos melhores e mais bem avaliados trabalhos do III Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão (São Paulo, 4 a 8 de dezembro de 2017);
  • Lançamento do livro que traz a tese de doutorado do Autor, “O Eixo da Incompreensão: a guerra contra o Iraque nas revistas semanais brasileiras de informação geral”;
  • Preparação dos originais de duas revistas científicas, uma brasileira (a decidir) e outra colombiana (Folios, da Universidade de Antioquia);
  • Início da preparação de obra autoral sobre o tema dos fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método;
  • Publicação de artigo científico Qualis B2 a A1;
  • Reuniões mensais do grupo de pesquisa;
  • Orientação de projetos de mestrado e de doutorado.

Primeiro semestre de 2019

  • Submissão de texto para o XXVIII Encontro Nacional da Compós;
  • Continuação da preparação de obra autoral sobre o tema dos fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método;
  • Início da preparação de Seminário sobre Fundamentos Teóricos e Epistemológicos da Compreensão como Método (IV Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão);
  • Publicação de artigo científico Qualis B2 a A1;
  • Edição especial da revista Folios (Colômbia) e de uma revista brasileira (a decidir).
  • Reuniões mensais do grupo de pesquisa;
  • Orientação de projetos de mestrado e de doutorado.

Segundo semestre de 2019

  • Continuação da preparação de obra autoral sobre o tema dos fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método;
  • Continuação da preparação do Seminário Fundamentos Teóricos e Epistemológicos da Compreensão como Método (IV Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão);
  • Publicação de artigo científico Qualis B2 a A1;
  • Reuniões mensais do grupo de pesquisa;
  • Orientação de projetos de mestrado e de doutorado.

Primeiro semestre de 2020

  • Submissão de texto para o XXIX Encontro Nacional da Compós, trazendo alguns dos resultados do projeto de pesquisa;
  • Seminário sobre Fundamentos Teóricos e Epistemológicos da Compreensão como Método (IV Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão):
  • Lançamento da obra autoral sobre o tema dos fundamentos teóricos e epistemológicos da compreensão como método;
  • Anais do evento e submissão dos artigos a revistas científicas qualificadas;
  • Publicação de artigo científico Qualis B2 a A1;
  • Preparação de livro(s) com os textos mais bem qualificados do IV Seminário Brasil-Colômbia.

 

Considerações finais

Ordinariamente amplo e repleto de boas intenções acadêmicas e práticas, um projeto de pesquisa precisa ser provado no exercício da própria investigação em suas possibilidades reais e em suas virtualidades. É tanto mais assim, consideramos, quando o jogo que se pretende jogar é o de um pensamento de natureza compreensiva em seus mais bem declarados propósitos, o que inclui a abertura ao novo, a boa vontade de se deixar questionar o tempo todo pelo próprio desafio dialógico e a aceitar o princípio elaborado por Hannah Arendt de que a compreensão não tem fim.

Um ponto positivo nessa busca aberta e plena de desafios pode, no entanto, ser sublinhado, que é o fato de ela ter atrás de si um caminho feito, que se não é longo nem pode jamais ser considerado o único, tem lá a sua importância no concerto das múltiplas buscas no terreno fértil do pensamento epistemológico, dentro e fora da Comunicação, dentro e fora da própria área científica, onde a vida, “tão triste de se possuir parcial” (Fernando Pessoa) acontece.

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__________. Ser jornalista na Colômbia hoje. Líbero, v. 17, n. 34, p. 21-30, jul./dez. de 2014.

__________. Pesquisa: compreensão da teoria do jornalismo (contribuições colombianas). Brazilian Journalism Research, v, 9, n. 1, 2013.

__________. Fato, trama e narrativa: um diálogo entre o Jornalismo e a Historiografia. Líbero, v. 15, n. 29, junho 2012.

__________. Informe impunidad y prensa en Colombia. Trabajo premiado por la Sociedad Interamericana de Prensa, Puebla, México, julio 2011. Disponível em: <http://www.impunidad.com/PDF_conferencia_puebla/06.UdeA.pdf>. Acesso em: 5 fev. 2018.

__________. O diálogo possível no jornalismo latino-Americano. In: MARTINEZ, Monica; MENDEZ, Rosemary (Orgs.). Mestres da Comunicação. São Paulo: Phorte, 2010.

WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Ed. UnB, 1991.

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¹Os comentários sobre o Panteão procedem da mais recente visita do Autor ao monumento, em 28 de dezembro de 2017, e a informações que podem ser encontradas em <www.monuments-nationaux.fr>. Acessado em: 29 dez. 2017.

²Um estudo mais elaborado sobre a Escola de Atenas e a compreensão como método pode ser visto em KÜNSCH, Dimas A. A academia, a comunicação e a compreensão: saberes plurais em roda de conversa. Tríade: Comunicação, Cultura e Mídia, v. 4, p. 6-22, 2016. O artigo nasceu de uma Aula em comemoração aos 10 anos de implantação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba, em 2016.

³Um texto de autoria de Dimas A. Künsch, Mateus Yuri Passos e Roberto Chiachiri, apresentado ao GT Comunicação e Cultura, da Compós, em seu XXVII Encontro, de 2018, intitulado “O dedo indicador de Platão e a mão direita estendida de Aristóteles: cultura como movimento conversacional no contexto de um pensamento compreensivo”, traz uma contribuição para o entendimento do pensamento compreensivo à luz da metáfora da “Escola de Atenas”, num diálogo com Bakhtin e Peirce.

4Um dos resultados tardios desse projeto foi o Curso de Capacitação de Mediadores e Conciliadores Judiciais (2016-2017), feito por este Autor, com certificação pelo Conselho Nacional de Justiça, o CNJ.

5 “A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e não necessariamente a melhor”, escreve Juremir Machado (2010, p. 42), apoiando-se em Paul Fayerabend em sua obra Contra o método. Machado cita no mesmo contexto Jean-François Lyotard, quando este afirma que “O saber em geral não se reduz à ciência, nem mesmo ao conhecimento” (apud Machado, 2010, p. 42).

6 “Uma das respostas humanas diante ao caos”, a narrativa acrescenta sentidos mais sutis à produção jornalística, ou à “arte de tecer o presente”, na expressão de Medina. O caos se faz cosmos por meio da inteligência humana capaz de produzir sentidos e de narrar os acontecimentos, a vida, o mundo. “O que se diz da realidade constitui uma outra realidade, a simbólica. Sem essa produção cultural – a narrativa –, o humano ser não se expressa, não se afirma perante a desorganização e as inviabilidades da vida”, reflete a autora, para concluir: “Mais do que talento de alguns, poder narrar é uma realidade vital” (MEDINA, 2003, p. 47-48).

7 Todas as referências ao projeto podem ser verificadas na Plataforma Sucupira (https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/projetoPesquisa/viewProjetoPesquisa.jsf?popup=true&idProjeto=341153), no Portal da Cásper Líbero (www.casperlibero.edu.br/mestrado) ou no site do Grupo de Pesquisa (www.dacompreensão.com.br). Acessos em 30 dez. 2017.

8 Cf. em <http://www.dacompreensao.com.br/2017/11/26/153/>, onde se pode verificar também toda a programação do II Seminário, em 2016. Acessado em 29 dez. 2017.

Um mapeamento bastante completo das noções e das ações desenvolvidas pelo grupo de pesquisa até a data da defesa de sua dissertação de Mestrado, em 25 de setembro de 2015, foi apresentado por Pedro Debs Brito em “Comunicação e compreensão: uma contribuição para os estudos da compreensão como método”. Disponível em: www.casperlibero.edu.br/mestrado/dissertações. Acesso em: 4 jan. 2018. O projeto “A compreensão como método”, nos três anos de sua vigência, foi de longe o mais vigoroso em produção de textos, pesquisas dos mestrandos e eventos do Programa ao qual esteve associado, o mesmo vigor podendo ser observado na execução do convênio de cooperação acadêmica entre a Cásper Líbero e a Universidade de Antioquia. Os dados podem ser comprovados numa visita à Plataforma Sucupira.

10 Na escola de “Studium Generale” ou “Cross Education” que tinha projetado com Miguel Reale e discutido entre outros com Chomksy, Santillana e Quine, como descreve em Bodenlos (2007, p. 205-209), Vilém Flusser reservava um lugar especial à Comunicação e a suas teorias… A cadeira de teoria da Comunicação serviria de “ponto de cruzamento” entre o círculo de cadeiras de natureza científica e o de natureza humanística. Assim pensada, a teoria da Comunicação “procura generalizar várias disciplinas, a fim de desautonomizá-las e desteconologizá-las… (…) assim definida a teoria da comunicação visa superar o saber tecnológico por um saber engajado no homem” (Flusser, 2007, p. 206). Auspiciosa, a ambição de Flusser poderia se alargar, dentro do pensamento da compreensão para incluir nessa roda de conversas outros conhecimentos, saberes, experiências e outras visões de mundo que vão além das Ciências e das Humanidades.

11 Informações em Brito (2015).

 

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